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Vozes silenciadas: a vivência de uma profissional do sexo

  • Foto do escritor: Bianca Lucca
    Bianca Lucca
  • 13 de jun. de 2023
  • 9 min de leitura

Quando chega a noite na avenida W3 na cidade de Brasília, o comércio fecha e as ruas ficam desertas, é a hora das profissionais do sexo começarem a sair para trabalhar. Muitos as veem como ratos saindo de um bueiro para não assustar os que ali passariam normalmente, elas esperam solitárias, exibindo seus corpos com roupas curtas e maquiagens extravagantes para chamar atenção dos possíveis clientes.


Me aproximei de uma mulher alta que esperava pelos seus fregueses encostada em uma pilastra debaixo de um prédio comercial. Estava fazendo frio, e ela usava um vestido vermelho curto decotado e salto alto. Ela logo estranhou por não se tratar de uma abordagem feita pelo seu público comum, os homens, mas sim uma mulher querendo ouvi-la.


Ao me apresentar e propor a entrevista, a mulher se debruçou na janela do carro, abriu um sorriso desconfiado e perguntou: “E o que eu ganho com isso?”. As figuras que eu via de longe à noite, enquanto voltava para minha casa passando pela W3, agora possuíam um rosto e um nome: Nyna Olliver concordou em conversar comigo se eu pagasse pela sua hora.


Nyna é uma mulher trans de 21 anos. Por um momento, me enxerguei em Nyna por termos a mesma idade, mas realidades tão diferentes. Quando entrou no carro, achou engraçada a situação de apenas conversar e logo foi se soltando. “Cheguei em Brasília não faz nem uma semana. Vim de Salvador com uma amiga porque aqui se ganha mais dinheiro. Desde o dia que eu cheguei não paro de trabalhar para conseguir pagar a semana da casa da cafetina que estou ficando.”


Durante sua infância, ela conta que morava com a mãe na Bahia e nunca teve um pai presente, por mais que pagasse pensão: “Quando eu fiz dezoito anos, ele falou ‘se vira’, e eu me virei. Me joguei nessa vida e comecei minha transição. Eu tinha a visão só daquele momento, do dinheiro fácil. Só que depois quando eu vi que estava me aproximando de viver só de programa eu tive outra visão, que é uma ilusão. Que eu vou só ser vista como um objeto. Cansa, sabe? Ser usada, só usada.”




Reviravolta


Nyna se assumiu para a mãe com 14 anos, que diz nunca ter ligado muito para o que a filha fizesse ou deixasse de fazer, apesar de não concordar com o estilo de vida e preferir que ela fosse para a igreja. Ao atingir a maioridade, começou a injetar hormônios femininos sem acompanhamento médico, apenas com a ajuda de amigos, e colocou silicone industrial. “Mesmo depois disso tudo o povo me olha pensando que é uma travecona, um travecão. Eu queria me sentir uma garota. Então é um pouco frustrante, sabe? Quando toma hormônio, nossa cabeça muda. Tudo muda. Interfere no psicológico. Eu tenho uma cabeça que, meu Deus, eu nunca pensei em ter. É uma loucura” explica.


O sonho de Nyna era abrir uma loja e trabalhar com vendas de roupas. É apaixonada por moda e quer reger o próprio trabalho. “Eu queria ser dona de alguma coisa. Ter um dinheirão para abrir uma loja e parar de me prostituir. Hoje sinto que é um pouco tarde. Eu até queria fazer algum curso, mas acho que não me cabe. Acho que sou muito burrinha” ela diz com uma voz triste.


Para ela, a maior dificuldade da profissão é lidar com os clientes agressivos. Ela conta dois casos que a marcaram muito. Um aconteceu recentemente, quando ela se recusou a fazer sexo sem preservativo e o homem ficou raivoso: “Falei para ele que ia ter que me pagar de qualquer jeito, porque me fez perder um cliente. Ele veio para cima de mim com uma chave, me arranhou na barriga. Nisso eu subi na cama e comecei a gritar. Xinguei ele todo. Não dá para pedir ajuda, sou eu por mim mesma. E quem vai ligar? Ninguém liga, amiga. Vida de puta é isso.” Disse ela me mostrando a barriga machucada.


“Uma outra vez fui fazer programa e o pênis do cara não subia. Ele ficou com raiva e veio para cima de mim com a mão no meu pescoço, tentando me matar mesmo. Consegui sair correndo e fui para a rua desesperada pedindo carona para o primeiro carro que aparecesse. Sorte minha que uma moça parou. Eu entrei no carro e desabei de chorar.” Emociona-se.


A competitividade entre as garotas na rua também é um fator de risco. A jovem diz preferir manter distância das colegas por se sentir muito invejada por ser mais nova. “Elas querem procurar briga por qualquer motivo. A gente sempre acaba se estranhando. Então eu prefiro me reservar.”


A parte positiva do seu trabalho é o dinheiro rápido. “Minha mãe nem sabe de mim, onde eu estou, como eu estou, nem sabe o que eu faço da vida, mas sempre estou mandando um dinheirinho para ela.” Nyna também gosta de investir o dinheiro em si mesma. Cheia de tatuagens, unhas postiças e mega hair, ela fala que também gosta de ser blogueira nas redes sociais.


Nosso tempo juntas se acaba e Nyna agradece pela experiência diferente que proporcionei para sua noite. Apesar das confissões, ela volta para as ruas bem-humorada para continuar o seu trabalho. Volto para minha casa pensativa e cansada. Afinal, está muito tarde. Cada uma das jovens de 21 anos segue seu rumo.


Confira um trecho da entrevista:



A arte imita a vida


A socióloga Luiza Carolina de Olinda explica que existe a violência física, a cultural e a simbólica. A pesquisadora entende que as pessoas que se prostituem possuem uma socialização diferente da comum. “Os danos vão estar sempre ali, por mais que mudem de vida. A violência simbólica é de se tornar um objeto, e, por consequência, ter a chance de presenciar as piores facetas do ser humano quando ele se considera superior a algo ou alguém.”


As considerações da especialista fazem lembrar o que cantou Cartola em “A vida é um moinho”: “Ainda é cedo, amor... Mal começaste a conhecer a vida, já anuncias a hora de partida, sem saber mesmo o rumo que irás tomar...” assim começa a música do grande compositor brasileiro, que a teria escrito para sua filha adotiva, Creuza Francisca dos Santos, que começara a se prostituir.


Por mais que seja uma teoria e nada da letra da música deixe explícito a intenção do cantor, vários paralelos podem ser feitos com a vida real das prostitutas. “Presta atenção, querida, embora eu saiba que estás resolvida, em cada esquina cai um pouco tua vida, em pouco tempo não serás mais o que és”.


Em várias esquinas muitas mulheres fazem seu ganha pão dessa forma. Quando Cartola diz que em pouco tempo a filha não será mais o que era, aborda uma perspectiva social da marginalização das prostitutas. Cada uma delas possui uma vivência diferente que pode acabar sendo um caminho sem volta.


Em vielas sombrias, onde os suspiros da noite se misturam com o aroma pútrido do pecado, dançam as tristes narrativas de exploração e violência que assombram as profissionais do sexo. Os olhos cansados das mulheres, outrora sonhadores, agora refletem cicatrizes invisíveis, testemunhas mudas de um mundo implacável.


Cada violência sofrida deixa uma marca. Essas são as formas cruéis que mancham a face da prostituição. Um mosaico de tragédias silenciadas, onde corpos e almas são vitimados. Romper essas correntes, buscar justiça e dignidade é uma tarefa árdua e urgente.


“Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó”

Consequências sociais


No Brasil, a prostituição em si não é considerada crime. O Código Penal brasileiro não criminaliza a atividade da prostituição em si, mas sim determinadas práticas relacionadas, como o favorecimento da prostituição de terceiros, o proxenetismo e o tráfico de pessoas para fins de exploração sexual. Em outras palavras, a pessoa que exerce a prostituição não é penalizada por isso.


É importante ressaltar que a forma como a prostituição é regulamentada varia de acordo com as leis de cada município. Alguns municípios podem adotar regulamentações específicas, como o cadastro das trabalhadoras sexuais e a criação de zonas de prostituição. No entanto, essas regulamentações são bastante limitadas e estão longe de serem amplamente implementadas em todo o país.


Em relação à irregularidade, é importante mencionar que, embora a atividade em si não seja considerada crime, as pessoas envolvidas na prostituição podem enfrentar diversos desafios em termos de segurança, acesso a direitos trabalhistas, proteção legal e estigma social. Muitas vezes, as trabalhadoras sexuais enfrentam condições precárias de trabalho, exploração e violência, especialmente aquelas que estão em situação de vulnerabilidade econômica e social.


“Para as prostitutas, a irregularidade seria mais fácil, porque assim elas não pagam imposto, como acontece em muitos casos. Tem que se tomar muito cuidado, por ser mais fácil de viver na criminalização. Não regularizar o trabalho é uma faca de dois gumes. Quando você não regulariza, não paga imposto, mas fica totalmente exposta em um trabalho que já é de risco. O imposto cobrado pela prostituição é um pouco maior, por ser um trabalho de exposição” disserta Carolina.


A socióloga também comenta sobre as relações de gênero e poder: “A prostituição é um reflexo e uma perpetuação das desigualdades de gênero nas sociedades. Ela reforça a ideia de que as mulheres são objetos sexuais disponíveis para o prazer masculino, e as normas sociais que sustentam a subordinação das mulheres. Está intrinsecamente ligada ao poder e às desigualdades sociais, uma vez que as pessoas envolvidas na prostituição geralmente ocupam posições de maior vulnerabilidade e são exploradas por aqueles que detêm mais poder econômico e social.”


Entender os fatores que envolvem a prostituição é uma jornada guiada pela sociologia. Nesse mergulho profundo, compreendemos as engrenagens sociais, econômicas e políticas que impulsionam essa realidade. Sob a luz da análise sociológica, desvendamos as teias do poder, as desigualdades tecidas em silêncio e as normas sociais que aprisionam. Em cada passo dessa investigação intrépida, desnudamos as raízes entrelaçadas das relações de gênero, desafiando-as com a audácia de questionar.


Na maioria dos casos, não é uma profissão escolhida por afinidade, vocação ou vontade, mas sim por facilidade e necessidade. “As causas que levam as pessoas a se envolverem na prostituição são complexas e variadas. Alguns fatores comuns incluem pobreza, desigualdades econômicas, falta de oportunidades de emprego, violência doméstica e marginalização social”, diz a socióloga. “Acontece por causa do patriarcado, do machismo e do capitalismo.”


Assistência social


Em meio a esse cenário tão carregado de vulnerabilidade e dor, emerge a figura corajosa da assistente social, pronta para enfrentar os desafios e estender a mão a quem vive à margem da sociedade, que se torna a voz e a esperança daqueles que muitas vezes foram silenciados.


Seu trabalho é explicar à população quais são seus direitos e orientá-la a partir disso. A assistente social Maria Luiza Nogueira conta como pode ajudar as profissionais do sexo: "A primeira coisa que tem que se pensar com relação a trabalhadoras sexuais, para que a gente tivesse como assegurar e proteger essas mulheres, seria necessário que esse trabalho fosse regularizado, que a legislação brasileira reconhecesse que elas podem trabalhar de forma não informal.”


Ela explica que o trabalho informal não possui CLT. Então, as prostituas não têm uma legislação que as assegure em seus direitos, como horas de trabalho, benefícios de aposentadoria, etc. Não existe um aparato do Estado que proteja essas trabalhadoras. “São trabalhos muito precarizados justamente por causa disso, porque não têm um apoio e não têm uma legislação que as proteja nas diversas formas de violência que elas podem sofrer.”


Não existindo uma carga horária trabalhista definida, as prostitutas estão sujeitas a trabalharem por horas a fio, sem ter tempo para conciliar sua vida pessoal, o que pode gerar problemas físicos e mentais. A assistente social faz um paralelo com um médico, que possui na legislação de sua profissão quantas horas semanais ele pode trabalhar, seu piso salarial, seu código de ética, entre outros direitos assegurados. Nada disso é assegurado para as profissionais do sexo.


“Dificilmente as trabalhadoras sexuais vão ter uma legislação por agora. Enquanto isso, a assistente social pode intervir em outros espaços, dialogar sobre seus direitos e dar um suporte jurídico. Porque a gente sabe que essas pessoas são muito violentadas. Uma assistente social pode fazer encaminhamentos. Por exemplo, uma pessoa que foi violentada enquanto estava trabalhando. Se ela tiver contato com uma assistente social, vai ser encaminhada para a delegacia e informada dos seus direitos. Buscamos entender também a situação econômica dessa pessoa, então explicar para ela que ela pode se encaixar em certos benefícios ou não.” Explica Maria Luiza.


Em nossa conversa, a assistente social evidencia o preconceito com que essa profissão é vista pela sociedade: “enxergam com viés bem moralista, uma coisa profana, uma coisa errada.” Tal prejulgamento com as profissionais do sexo reflete a moralidade que tenta aprisioná-las em estigmas e estereótipos injustos. É um julgamento que transcende o campo profissional, invadindo suas vidas pessoais e minando suas oportunidades. É uma ferida que impede a sociedade de enxergar além da superfície, de compreender que essas mulheres são multifacetadas, com sonhos, medos e aspirações como qualquer outra pessoa.


Os principais fatores que dificultam a reintegração social e profissional das pessoas que deixam a prostituição são o estigma social, a falta de suporte financeiro, a falta de habilidades profissionais reconhecidas, a discriminação e as barreiras legais. A assistente social trabalha para enfrentar esses desafios, fornecendo apoio psicossocial contínuo, acompanhamento no processo de reintegração, facilitação do acesso a programas de inclusão social e conscientização sobre seus direitos.


Confira um trecho da entrevista:




É hora de remover esse véu do preconceito e abrir os olhos para a realidade complexa que envolve a prostituição. É necessário abandonar os julgamentos e ouvir suas vozes, compreender suas experiências e lutar por uma sociedade que acolha a diversidade e respeite a autonomia de cada indivíduo.


Quebrar o ciclo do preconceito é um desafio, mas é possível. A empatia, a educação e o diálogo são as ferramentas que podem iluminar o caminho para uma sociedade mais inclusiva e compassiva. É necessário que a sociedade se abra para desafiar os preconceitos arraigados e construa um mundo onde todas as pessoas sejam tratadas com respeito e dignidade, independentemente das escolhas que façam para sustentar suas vidas.


Por Bianca Lucca

Supervisão: Luiz Claudio Ferreira

 
 
 

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