top of page
Buscar

De músico a designer a história de superação de mais um jovem negro no Brasil

  • versoseversoes2023
  • 5 de jul. de 2023
  • 5 min de leitura

“Brasileiro, eu não escolhi gingar

Papai do céu lá de cima

Jogou cá nesse lugar um tanto de malandragem

O que tem nosso fubá? Sabe lá

Brasileiro, eu não escolhi gingar

Papai do céu lá de cima

Jogou cá nesse lugar um tanto de malandragem

O que tem nosso fubá? Sabe lá”

- Brasileiro (Puro Suco)


Superação e resiliência fazem parte da trajetória de uma família do Recanto das Emas, no Distrito Federal. Jovem de 24 anos, Pedro Campos nasceu em um momento em que a família passava por dificuldades financeiras e sem a presença paterna. Ele diz que encontrou nas dificuldades a motivação para enfrentar os desafios da vida.

Criado por uma mãe solo, o hoje designer teve que aprender desde cedo a lidar com a responsabilidade e a solidão. A mãe, uma mulher corajosa e batalhadora que ficou desempregada, assumiu o papel de prover o sustento da família, ao mesmo tempo em que dedicava seu amor e cuidado ao filho.


O pai, ausente desde os primeiros anos de vida do jovem, deixou uma lacuna que seria preenchida pela força de vontade da mãe, que faz parte da estatística de mães solos negras no Distrito Federal. Segundo o Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF), no ano passado, 72,6% dos domicílios com arranjos monoparentais femininos encontravam-se sob a responsabilidade exclusiva de mulheres negras.


A falta de recursos financeiros tornou a jornada ainda mais árdua. O jovem se via sozinho em casa, tendo que aprender, por necessidade, a realizar as tarefas domésticas e garantir sua própria sobrevivência. Apesar das dificuldades, esse período de independência forçada desenvolveu nele habilidades práticas e uma maturidade precoce.


Sem emprego


Aos 9 anos de idade, o destino pregou mais uma peça nessa história de vida. A mãe dele foi demitida do emprego, lançando a família em um período ainda mais desafiador. Banhos tomados no córrego do Recanto das Emas e a escassez de recursos passaram a ser parte do cotidiano dessa família.


Apesar das privações, o jovem encontrava nos momentos compartilhados com a mãe uma fonte de alegria e ludicidade, segundo recorda Pedro. Era como se, mesmo em meio às adversidades, eles conseguissem encontrar um modo de se reinventar e enxergar beleza nos pequenos prazeres da vida.


Ainda na infância uma nova esperança surgiu no horizonte. A mãe conheceu o novo companheiro, que, embora carregasse dívidas consigo, trouxe um fôlego financeiro para a família. Contudo, as dificuldades ainda não haviam chegado ao fim. O casal passou por momentos desafiadores, onde cada centavo era disputado com os credores, mas o amor e a perseverança sempre os mantinham unidos.


Com o passar do tempo, a mãe de Pedro engravidou e deu à luz seu segundo filho, quando Pedro tinha 15 anos. Essa nova adição à família trouxe consigo um motivo a mais para eles se esforçarem e trabalharem ainda mais. A responsabilidade de cuidar e proteger aqueles que amava o impulsionou a buscar oportunidades e se dedicar aos estudos.


Foto: Arquivo pessoal


Ainda no mesmo ano do nascimento do irmão, ele aprendeu a tocar violão em um projeto social, Pedro descobriu a paixão pela música. Essa nova habilidade abriu as portas para o primeiro emprego formal como professor de violão. Era uma fonte de renda estável. “A primeira coisa que eu fiz com a grana foi comprar tudinho de besteira”, recorda.


Na jornada musical, o jovem em pouco tempo expandiu o repertório ao aprender a tocar violino e ingressar na prestigiada orquestra infantil da Universidade de Brasília (UnB). Essa fase da vida foi marcada por descobertas enriquecedoras. Isso permite que ele vislumbrasse outras realidades e oportunidades além das limitações que conhecia. No entanto, um incidente traumático alteraria drasticamente o rumo de sua história.


Violência


Era um dia como outro qualquer, o jovem aos 16 anos foi vítima de um assalto violento, no qual teve seu violino e celular roubados. A ameaça à sua vida, representada pela arma apontada em sua direção, gerou um profundo choque emocional. A partir desse momento, o medo e a ansiedade se tornaram companheiros constantes, minando sua confiança e afetando seu amor pela música. Ele se via incapacitado de sair de casa e até mesmo de enfrentar situações cotidianas, como pegar um ônibus.


Alguns meses se passaram até que ele encontrasse uma nova oportunidade em um projeto social que trabalhava com percussão corporal. Durante uma apresentação, um grupo de mulheres suecas testemunhou o talento e a energia contagiante de sua performance, decidindo levá-lo e sua equipe para a Suécia. O convite para uma experiência internacional despertou em seu coração uma mistura de entusiasmo e apreensão.


Porém, a realização desse sonho requeria obstáculos burocráticos adicionais. Sendo menor de idade, ele precisava obter a autorização tanto de seu pai quanto de sua mãe para emitir o passaporte. Mesmo com a comprovação da ausência paterna, uma situação legal complexa se desenrolou. No final, foi necessário recorrer à intervenção judicial, permitindo que um juiz assinasse como seu responsável.


A chegada à Suécia proporcionou uma realidade totalmente nova para Pedro. Instalados em um hotel luxuoso, com cartões para alimentação e até mesmo um motorista à disposição, ele vivenciou o contraste abismal entre sua nova vida em um país de primeiro mundo e a realidade difícil enfrentada por sua família no Brasil.


A situação de desemprego de seu padrasto intensificou o sentimento de responsabilidade e gerou um choque de consciência. Afinal, como poderia aproveitar as vantagens oferecidas nessa terra estrangeira quando sua própria família lutava para garantir o sustento diário, chegando ao ponto de enfrentar a falta de eletricidade em casa?


Foto: Arquivo pessoal


Essa experiência transformadora despertou uma mudança significativa na mentalidade do jovem. Embora ele já se esforçasse, compreendeu que era necessário fazer ainda mais pela sua família. A determinação que o acompanhava desde a infância se consolidou em um propósito mais amplo, impulsionando-o a buscar formas de melhorar sua condição socioeconômica e, assim, oferecer um futuro melhor para aqueles que amava.


Não dava para esperar


Consciente das suas responsabilidades familiares e das dificuldades financeiras que o cercavam, o jovem precisou tomar uma decisão difícil. Embora a música oferecesse um potencial promissor, ele percebeu que não tinha o luxo de esperar indefinidamente pelo seu sucesso. Sua família precisava dele no presente, e adiar suas obrigações não era uma opção viável.


Foi então que ele descobriu sua afinidade com o design gráfico. Em um momento determinante, recebeu uma doação de peças de computador de uma instituição de ensino, o que permitiu que montasse seu próprio equipamento. Apesar de as peças serem antigas e ultrapassadas, ele encontrou ali uma oportunidade para desenvolver as habilidades no design gráfico.


Com dedicação e autodidatismo, o jovem aprendeu rapidamente e buscou aprofundar seus conhecimentos na área. A mãe, mesmo com dificuldades financeiras, sacrificou-se para pagar um curso que lhe proporcionasse um maior domínio na profissão. Mais tarde, ele descobriria que ela havia se endividado para investir em seu futuro.


No entanto, a pandemia da covid-19 trouxe um novo conjunto de desafios. Apesar das dificuldades, Pedro Campos conseguiu, aos poucos, conquistar trabalhos no campo do design gráfico em Brasília, garantindo sua independência financeira. Hoje, ele se sente plenamente realizado e grato pelo seu percurso. Vive com sua companheira, ajuda a mãe e o irmão. Hoje diz que uma prioridade é valorizar a saúde mental, e equilibrar o trabalho com momentos de descanso e autocuidado.


Por Pedro Reis

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

 
 
 

Comentários


bottom of page