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Entre melodias, bisturis e pincéis

  • versoseversoes2023
  • 5 de jul. de 2023
  • 8 min de leitura

Diretor do Hospital de Base, na época em que Tancredo Neves, presidente eleito mas não empossado, ficou internado, Gustavo Arantes tem alma de artista


Foto feita para tranquilizar o país. "Tancredo se recuperando", por Gervásio Baptista.


No canto esquerdo da foto do então presidente eleito, Tancredo Neves, está o então diretor-geral da Fundação Hospitalar, Gustavo Arantes de Pereira. O sorriso impresso na fotografia do dia 25 de março de 1985, quando ele tinha 37 anos, reflete sua simpatia aos 76. O registro ganha um ângulo ainda mais sinuoso quando Gustavo fala sobre suas paixões pela arte: música, medicina e pintura.


Apesar do sorriso, as memórias de Gustavo Arantes de quando Tancredo estava no Hospital de Base (HB), não são tão boas quanto as lembranças de quando ele era vocalista e guitarrista do conjunto The Killers, que tocava o estilo Jovem Guarda, no Rio de Janeiro.


Para ele, a credibilidade do HB sofreu impactos injustos depois da internação de Tancredo, em 85, com as histórias permeadas por versões que se contradizem e que mal podem ser reveladas, por segredo de Justiça.


Os comentários sobre o que era verdade e o que era mentira em relação à internação de Tancredo no Hospital de Base, não começaram com a foto tirada pelo repórter fotográfico Gervásio Baptista, em que se perguntavam se Tancredo estaria vivo ou morto. Os boatos e segredos tiveram início com a chegada do presidente, no dia 14 de março de 1985.


Como diretor do Hospital de Base, a função de Arantes era viabilizar a cirurgia e nada mais. Naquele dia, depois de receber uma ligação do cirurgião e vice-diretor médico da Câmara dos Deputados, Francisco Pinheiro da Rocha, o diretor do HB organizou um esquema para a possível recepção do presidente eleito e não teve mais notícias sobre o assunto até o fim da noite do dia 14.


“Perto de meia noite, recebi um telefonema do diretor-médico da Câmara e médico pessoal de Tancredo, Renault Mattos, dizendo que o paciente estava a caminho, meio que em códigos. Indiquei o melhor caminho para pegarmos o paciente e levarmos para a suíte presidencial, sem maiores problemas”, comentou.


Ao chegar no HB, Tancredo foi levado para o quarto da suíte presidencial, que possui cerca de 300m². Nas primeiras horas, Gustavo conta que a equipe médica formada por Pinheiro e Renault, e mais alguns assistentes, passou a administrar soro na tentativa de aliviar as dores abdominais do presidente.


Depois de notar que os medicamentos não estavam tendo o resultado desejado, o cirurgião responsável, Pinheiro, se encarregou de levar o presidente para a primeira cirurgia abdominal, na madrugada do dia 15 de março.


“Durante a cirurgia foi verificado um tumor benigno, um leiomiossarcoma, e dentro das perspectivas médicas, a cirurgia ocorreu da melhor forma. Ao sairmos do centro cirúrgico, o novo governo estava reunido na ante sala da suíte presidencial, e ao prestarmos satisfação sobre o que tinha sido realizado durante a operação, fomos surpreendidos com o pedido de que se alterasse o diagnóstico, para não alarmar a população sobre o tumor benigno do presidente às vésperas da eleição. Ia parecer mentira”, ressalta.


Arantes não comentou sobre quem teria feito o pedido de alteração do diagnóstico de leiomiossarcoma para diverticulite. “Foi a solução mais plausível. Quando o divertículo infecciona, se torna diverticulite. Apesar da diferença entre as duas doenças, o quadro clínico é bem parecido e traz uma ideia distante de câncer e de morte.”, explica.


Além da foto montada e da alteração de diagnóstico, os boletins diários sobre o estado de saúde de Tancredo Neves durante os 15 dias de internação, foram vistos com olhar de suspeita. O responsável por relatar a saúde do presidente era Renault, que escrevia em todos os boletins de Tancredo a mesma mensagem, sem muitos detalhes:


“Passou a noite bem, sinais vitais ok”.

A incompletude de informações sobre o caso clínico do presidente eleito foi considerada um erro de conduta, ocasionando na abertura de um processo no Conselho Regional de Medicina contra a equipe do Hospital de Base da época. “Investigaram tudo e viram que não teve erro médico. Puderam verificar que a cirurgia tinha ido bem e tudo foi verificado. A única coisa que não tinha explicação era a motivação das poucas informações sobre o estado diário de saúde do presidente”, finaliza Gustavo Arantes.


Os ruídos sobre o trabalho da equipe médica do Distrito Federal fez com que a família convidasse uma junta médica vinda de São Paulo para dar um novo parecer sobre o estado de saúde de Tancredo. Na foto de Gervásio Baptista está parte da equipe de Brasília e parte da equipe vinda de São Paulo, sendo um deles o cirurgião gástrico, Henrique Walter Pinotti.


Poucas horas depois de tirada a foto, Tancredo teve um quadro de hemorragia no abdômen, e foi levado para outra cirurgia. “Na segunda cirurgia de Tancredo, Pinheiro realizou a incisão na altura do abdômen e entregou o bisturi para o Pinotti continuar. Passar o bisturi significa abrir mão de conduzir o paciente e, daquele dia em diante, quem tomou a frente do caso foi o Pinotti”, conta.


Depois da cirurgia, começaram a surgir novos problemas no quadro de saúde de Tancredo, e Pinotti começou a defender que os problemas não eram só do presidente. Em uma entrevista para a revista Veja, o cirurgião gástrico fez duras críticas ao Hospital de Base, gerando ainda mais ruídos entre a equipe médica e o hospital. Como o Tancredo não melhorava, Renault, Pinheiro e Pinote decidiram transferi-lo para São Paulo.


“Apesar de ter plena certeza de que o Hospital de Base estava fazendo o melhor para o paciente, meu papel era oferecer o que pediam. Então, às 7h da manhã, do dia 26 de março de 1985, Tancredo Neves foi transferido para o Instituto do Coração, em São Paulo ”, relembra o diretor da instituição.


Depois de passar por mais cinco cirurgias no Instituto do Coração, Tancredo não resistiu e faleceu no dia 21 de abril de 1985.


Uma jornada de oportunidades


Em 2006, Gustavo Arantes se aposentou da Secretaria de Saúde do DF. Sete anos mais tarde, se aposentou na Câmara dos Deputados. Em 2015, a vida já não seguia o ritmo dos atendimentos e consultas médicas, e um dia, caminhando pela Asa Sul, região do plano piloto de Brasília, Gustavo se interessou por um folheto que divulgava aulas de pintura.


Apesar da inspiração pelas telas e tintas ter sido reconhecido por Gustavo em 2015, o universo das artes o acompanha desde o bairro de Laranjeiras, na Zona Sul do Rio de Janeiro, onde morou com a sua família até se mudar para a capital federal.


“A maioria das minhas paixões vem de berço. Meu quarto dividia um ateliê improvisado do meu pai, Dr. Oswaldo de Arantes Pereira, que também era médico. A música, foi herança da minha mãe, que praticava violino, além da influência dos meus irmãos, que usavam o violão para conquistar as meninas”, comenta.


Não há como precisar se foi a música, a medicina ou a pintura que impactou Gustavo primeiro. Mas as letras e melodias deram o tom do começo de sua independência.


“Em 1965, quando eu tinha 17 anos, decidi que queria me casar com um amor de verão de Pederneiras, no interior de São Paulo, onde minha família costumava passar as férias. Para casar é preciso dinheiro e, como naquela época, o Rio de Janeiro vivia o frenesi dos conjuntos da Jovem Guarda, apostei no meu potencial de montar uma banda”.


Com a ideia de iniciar um conjunto, Gustavo e um de seus colegas da escola, Wagner, se uniram para dar início ao plano de animar as noites cariocas. Sem nome definido, a dupla recebeu uma proposta para se reunir com a diretoria social do Fluminense Futebol Clube, para tratarem de uma apresentação no evento “Sorvete Dançante”.


“Em um momento da reunião, a diretora nos perguntou qual era o nome da dupla. Imediatamente, lembrei de uma conversa com um dos meus irmãos sobre as bandas independentes que tocavam nos bares do Rio, e respondi que nossa banda se chamava “The Killers”, comentou.


Foto: Arquivo pessoal


Com o passar do tempo, a formação da banda foi mudando, até se tornar o conjunto oficial, composto por João Carlos, na guitarra solo, Luiz Carlos, no contrabaixo, João Bosco, na bateria e Gustavo, na voz e na guitarra.


Os The Killers passaram a se apresentar em vários clubes, da Zona Sul à Zona Norte, e também nas cidades mais próximas do Rio de Janeiro. O sucesso lhes sorriu e os quatro jovens foram ganhando destaque, sendo contratados para tocar nas "Domingadas do Iê Iê Iê", do clube do Olaria Atlético Clube e em festas particulares. O quarteto também chegou a se apresentar em renomados programas de Rádio e TV.


Foto: Arquivo pessoal



“Me vi ao lado de algumas das minhas inspirações, aqueles que eu ouvia aos sábados, na TV Continental, no programa do Carlos Imperial”, relembra.


A aspiração de Arantes não era, de fato, a fama. A banda foi uma justificativa para que ele juntasse dinheiro para casar com a namorada que morava em São Paulo. O casamento não foi para frente, mas os shows e apresentações não paravam de fazer sucesso.


Para dar conta das intensas apresentações, os The Killers tiveram que contratar um motorista. Para a missão, o quarteto foi apresentado ao Ernesto Barros, um português de Portugal, que de tão empolgado, se tornou o maior propagandista da banda.


“Ele dirigia com a gente pelo Rio de Janeiro e ia nos arrumando contratos. Foi o Ernesto quem conseguiu nosso primeiro teste para uma gravadora, a Atonal, presidida por Norival Reis, um dos membros da ala de compositores da escola de samba Portela, de 1966”, comentou Gustavo.


Os quatro artistas passaram no teste da gravadora e firmaram um contrato de exclusividade, que cobrava que o conjunto produzisse dois discos por ano. O primeiro LP, intitulado com o mesmo nome da banda, chamava atenção para os novos cantores do momento, considerados “cobras”, gíria que dizia que alguém era diferenciado.


Naquela altura, o conjunto não era apenas uma reunião de jovens que gostavam de música. A coisa tinha ficado profissional, exigindo mais ensaios e comprometimento. Foi neste momento, que começaram os desentendimentos.

Com o contrato da gravadora ainda em vigor, Norival Reis, convocou a banda para gravar um disco com o organista Araripe, que produzia músicas instrumentais. A partir daí, Araripe e The Killers começaram a se apresentar juntos.

“No carnaval, o presidente da Atonal pediu que a gente gravasse uma música de carnaval, no estilo Iê Iê Iê, da Jovem Guarda, e a música teve um grande alcance. Os The Killers chegaram a tocar a música carnavalesca duas ou três vezes no Chacrinha”, relembra orgulhoso.


Nada se podia fazer enquanto não acabasse o contrato com a Atonal. O sucesso dos The Killers, com quase um ano de criação, gerava um incômodo incomum a alguns membros da banda: o fato de não serem a atração principal. O inconformismo do Gustavo, de 19 anos, por uma banda comprometida, fez com que ele saísse do grupo em 1967.


Com o rompimento da banda, Gustavo passou a se dedicar aos estudos para passar no vestibular de medicina. Em menos de seis meses, o futuro doutor fazia parte da turma da Faculdade Nacional de Medicina do Rio de Janeiro, na turma de 1968, tendo concluído o curso em dezembro de 73.


Foto: Arquivo pessoal


No cursinho preparatório para a faculdade de medicina, no corredor que dava para sala de aula, Gustavo se deparou com a frase de Theodore Roosevelt, que reforça sua atitude corajosa diante da vida até os dias de hoje.


"É muito melhor arriscar coisas grandiosas, alcançar triunfos e glórias, mesmo expondo-se à derrota, do que formar fila com os pobres de espírito que nem gozem muito nem sofrem muito, porque vivem nessa penumbra cinzenta que não conhece vitória nem derrota", citou Gustavo.

Por Beatriz Bonfim

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira


 
 
 

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