De olho nas crianças: especialistas sugerem supervisão dos pais sobre uso de tecnologias
- Maria Eduarda Cardoso

- 28 de jun. de 2023
- 5 min de leitura
Uso de tecnologias durante o desenvolvimento infantil e no processo educacional podem trazer impactos para o futuro das crianças se estiver em excesso

Acorda às 6h da manhã e começa a rotina: Dar banho nas crianças, arrumar mochilas, organizar lancheiras, escovar os dentes. Confere se as atividades estão feitas. Leva para a escola e segue para o trabalho. Realiza as demandas. Enquanto isso, se mantém preocupada com o que será do restante do dia. O que as crianças vão comer, que horas buscar no colégio, quem vai poder buscar e etc. Ainda concilia tudo com os afazeres domésticos, lava louça, passa pano, organiza a bagunça. Essa é a realidade de Camila Casimiro e de muitas famílias brasileiras.
Em meio a rotina intensa de trabalho e necessidade de conciliação de educação dos filhos, a tecnologia pode ser vista como uma vilã ou como uma necessidade na rotina. Crianças estão cada vez mais expostas ao uso de celulares, televisões e tablets. É o caso dos dois filhos da professora Camila Casimiro, que é mãe de Murilo, de 8 anos, e Ananda, de 5. Ela explica que oferecer tecnologia para as crianças é a saída para conseguir dar conta de todas as atividades da rotina. “Para que a casa funcione e para que a gente dê conta das nossas atividades [os pais], a gente permite o uso das tecnologias”, disse Camila.
Ela diz que há a necessidade constante de vigilância dos conteúdos, uma vez que mesmo em plataformas dedicadas a crianças ela percebe a presença de conteúdos considerados inapropriados por ela. “A gente não tem controle total do que eles estão consumindo na internet [...] a gente tem que estar sempre de olho vigiando aquilo que eles estão consumindo, mesmo que seja um canal dedicado a crianças”, disse.
Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil de 2022, 96% dos usuários de Internet de 9 a 17 anos acessaram a Internet todos os dias no último ano. Este valor representa cerca de 26,6 milhões de indivíduos. Além disso, demonstra que as tecnologias estão cada vez mais presentes no dia a dia das crianças e adolescentes.
Dos entrevistados na pesquisa da instituição, 43% disseram se preocupar “sempre” com a privacidade na Internet. A pesquisa também revela que as crianças usam a internet para realizar atividades como ouvir música online (87%), assistir vídeos (82%) e pesquisas para escola (80%).
Camila fala que tenta orientar os filhos para consumirem as informações na internet de maneira correta. “Aproveitamos o momento das atividades que requerem pesquisas para que ele use a ferramenta [internet] a favor dele”, exemplificou.
A pesquisa TIC Kids Online Brasil de 2022 leva em consideração a amostragem de 2.604 crianças e adolescentes em todo o Brasil e foi realizada entre os meses de junho e outubro. 86% dos usuários de Internet de 9 a 17 anos possuem perfil em pelo menos uma rede social. A plataforma que mais teve registros de perfis foi o Whatsapp. A pesquisa também mostra que os jovens entre 15 e 17 anos usam mais o Instagram do que as demais redes. A faixa etária que mais usa a tecnologia para jogar online é a de crianças entre 11 e 12 anos.
Da amostragem obtida pela pesquisa, 79% dos entrevistados disseram que já enviaram mensagens instantâneas pela internet. Outros 32% disseram que já realizaram chamadas de vídeo.
Camila relembra a influência das publicidades e propagandas presentes nos produtos que os filhos consomem na internet. Ela explica que percebe a influência da publicidade nos filhos quando eles pedem os produtos que veêm. “Ele [Murilo] já me falou o nome desses bonecos [que vê nas propagandas] várias vezes”, disse. “Tem muita propaganda de brinquedos voltada para a idade deles”, afirmou.
A psicóloga infantojuvenil especialista em neuropsicologia Rebeca Ribeiro explica que o alto consumo de publicidade infantil durante a infância pode desenvolver aumento da frustração. “Por não ter o que está sendo ofertado, pode desencadear uma erotização precoce, transtornos comportamentais, insatisfação com o próprio corpo, entre outros aspectos”, explicou.
“No meu ponto de vista, o objetivo das propagandas é invadir a imaginação das crianças e implantar uma necessidade de consumo que na maioria das vezes são desnecessárias”, disse Rebeca Ribeiro.
Nesse cenário, Camila disse que determina tempo de uso de telas e, quando preciso, proíbe o consumo de tecnologia. Uma área importante para o desenvolvimento infantil é o processo educacional. É o período de desenvolvimento da criança. E a tecnologia presente nesse momento pode ser inimiga ou aliada. Camila considera que ao dar prioridade para a tecnologia, há prejuízo para o processo educacional das crianças. “Muitas vezes eu percebo que eles cumprem com as obrigações de forma rápida e sem atenção para acabar logo e poderem voltar para as tecnologias”, disse Camila Casimiro.
A psicóloga Rebeca Ribeiro explica que o uso da tecnologia pode sim trazer alguns benefícios para a aprendizagem da criança, desde que sua utilização venha através de um acompanhamento de um adulto. Por outro lado, sem a supervisão de adultos, as mídias podem ser “bastante prejudiciais para o desenvolvimento da criança. Pois é durante a infância que ela desenvolve a socialização, o senso crítico, entre outros aspectos neurológicos do desenvolvimento humano”, explicou.
Ela explicou que com uso de celulares, tablets e outras tecnologias as crianças tendem a se isolarem. E como consequência, há o aumento da ansiedade, dificuldade no desenvolvimento motor da criança e até atraso na fala dos bebês. “Os dispositivos têm a capacidade de ativar uma região cerebral que está relacionada aos mecanismos de recompensa, ativando assim o corpo para se manter em alerta”, afirmou.
Segundo a especialista, os sintomas principais decorrentes do uso excessivo de telas são: irritabilidade, ansiedade, tristeza, frustração, distúrbios alimentares, sobrepeso, dificuldade atencional e de aprendizagem, depressão, sedentarismo e outros.
Ribeiro sugere que para amenizar os impactos das tecnologias no desenvolvimento infantil é necessário evitar “o máximo possível o uso de telas”. Ela ainda fala que os pais devem ser exemplo para os filhos. “Não adianta proibir os filhos de usarem [tecnologias] se os pais não saem dos eletrônicos. Monitore conteúdos utilizados e proponha alternativas de outras coisas que podem fazer”, disse.
Nos atendimentos, Ribeiro diz que orienta os pais a supervisionarem o conteúdo que os filhos consomem. No entanto, ela percebe que muitos pais “andam omissos na supervisão, utilizando as telas como entretenimento e nem olham o que elas consomem”, disse.
“A Internet é um mundo muito perigoso para nossas crianças”, afirmou a psicóloga.
Já a psicopedagoga Rayssa Azevedo disse que é preciso controlar o uso da internet e das tecnologias. “A gente não vai deixar a criança sem tela, até porque esse é o nosso mundo. Isso está inserido no nosso mundo”, disse. Além disso, ela diz que cada faixa etária tem um tempo de uso de telas adequado.
Assista ao vídeo que a psicopedagoga explica os impactos das tecnologias no desenvolvimento de crianças:
Por Maria Eduarda Cardoso
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira





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