top of page
Buscar

Sonhém, uma escola de campo na capital

  • Foto do escritor: Mariana Albuquerque
    Mariana Albuquerque
  • 28 de jun. de 2023
  • 7 min de leitura

Histórias de vidas desconectadas no mato: como funciona a escola e a vida das crianças que precisam daquele espaço


Destinação inadequada de recursos, falta de livros didáticos e de investimentos na estrutura física são alguns dos problemas apresentados na maioria das escolas públicas espalhadas pelo país. Mas a história é diferente aqui na Escola Classe Sonhém de Cima, na zona rural da Fercal. Do lado de cá da capital, o povo do campo já vive a difícil realidade da violência no meio rural, as mazelas da pobreza e ainda tem que se preocupar com a saúde. Aqui, a visibilidade é mínima. Escuto e não tento não formar uma opinião de uma pessoa que veio do lado de lá.

As crianças aqui já não se preocupam com quando ir ao shopping assistir àquele filme, ou mesmo ganhar presentes que passam na TV. Na televisão daqui só tem canal aberto, pouco conteúdo infantil, e das 200 crianças que estudam no Sonhém, cerca de 70% delas não têm acesso à internet em casa, e de maneira livre e fácil, segundo a direção da escola.


Voltemos às origens do local onde estou, já que o conceito de educação do campo foi formulado a partir da iniciativa de movimentos rurais populares. Organização essa que começou a pressionar o Estado por políticas públicas específicas para as populações não-urbanas.


Entre legumes e verduras


Às vezes a sala de aula fica no meio de uma horta cheia de frutas, legumes e verduras. Aprender sobre matemática e português é mais divertido quando essas disciplinas são ensinadas no ar livre. Aqui na escola as crianças têm oportunidade de aprender e conhecer também sobre coisas que os cercam rotineiramente, sobre o campo e antigos da região.


Nesta instituição as crianças estarem devidamente alfabetizadas é o maior desafio. Isso porque, mesmo com todos os desafios já existentes, o ensino sempre conseguiu vencer as mais diversas barreiras.


Porém, a pandemia aqui foi pior. Pegar covid podia ser uma sentença de morte para a maioria das pessoas que não tem acesso a programas de saúde, nem mesmo o básico. O “não sair de casa” também decretou sobre a vida de boa parte dessas crianças do campo um fardo eterno de não vencer o analfabetismo brasileiro.


Os professores explicam que foi complicado o ensino remoto para uma sociedade desconectada. Descolados da realidade, beirava o impossível exigir que a maioria dos alunos andassem cerca de 2km para conseguir sinal de telefone e enviar as atividades. O professor Sérgio Luiz Teixeira conta que por diversas vezes se sentiu na obrigação de ir até a casa de alunos em meio a pandemia para ajudá-los. “Não era só o risco que corríamos que era o problema. Precisamos ajudar as crianças que ficaram em casa e sem acesso às atividades que passamos. Temos alunos com déficit de atenção e isso não podia ser ignorado”, conta o professor que se arriscava a sair de casa no auge da pandemia.


A barreira para o sonho


Thales, de 9 anos, apareceu de cavalo na escola enquanto eu tirava fotos e se exibia para a câmera fotográfica, ele estava ali no horário contrário à sua aula. O aluno conta que “adora os bicho". A expectativa da mãe de Thales era que o gosto do filho talvez virasse medicina veterinária, ela mesmo conta a imaginação e rebate “mas acho difícil, ele tem muita dificuldade”.


Thales. Foto: Mariana Albuquerque


O menino diz que sabe pouco das coisas ainda, e que sente dificuldade em ler e escrever. Ele pondera que a pandemia dificultou as coisas e fala pra mim que tem muita dificuldade para prestar atenção nas aulas. “Na covid, eu cuidava dos meus irmãos, queria só ficar na roça com meu pai, cuidava dos animais com ele. Eu gosto de ficar roçando com ele, acordava todos os dias cedo e ia pastar gado e tirar leite.”, conta Thales.


O menino descreve uma realidade, sinto dificuldade em perguntar as coisas, pois não vivemos nem de perto uma vida parecida, mas retomo a conversa sobre os estudos. O pequeno completa a conversa falando que tinha dificuldade mesmo, que o foco ficou difícil e que dificilmente fazia os deveres de casa durante a pandemia, até porque “meus pais não conseguiam me ajudar”. Os pais do menino também não são alfabetizados.


O menino e os porcos


“Miséria soa como pilhéria. Pra quem tem a barriga cheia, piada séria. Fadiga pra nós, pra eles férias. Morre a esperança. E tudo isso aos olhos de uma criança”, escreveu Emicida na música da animação O Menino e o Mundo. Quando olho para o Maxuel, de 4 anos, eu lembro dessa música. O menino que vive com os pais sendo filho único depende da renda da criação de porcos.


Maxuel. Foto: Mariana Albuquerque


Maxuel não conversa na escola, é um aluno quieto e não responde nem mesmo quando é questionado. Por isso, decidi ir até a casa dele. Ele só responde as perguntas quando falamos sobre a roça em que mora, o que ele faz no horário contrário a escola e como ajuda o pai a roçar a cana e cuidar dos porcos e das galinhas.


“Eu brinco na escola, faz dever, canto, e leio histórias". A conversa com ele é mais complicada. Maxuel é pequeno demais para a língua portuguesa. A vice-diretora da escola me conta que a mãe de Max vive com um câncer em fase terminal, o que faz com que ele queira passar mais tempo em casa do que no colégio. Isso se confirma quando pergunto se ele já está gostando da escola e ele diz que sim, mas que sente falta de ficar com os pais na roça.


Maxuel tem uma mãe com câncer terminal e que aparenta estar bem mais velha do que realmente é. O tratamento feito na cidade faz com que o aluno passe mais tempo com o pai na roça. Nos primeiros dias de aula ele me contou que ficou mal e que teve até febre, é verdade. A vice-diretora volta. “A escola não pode ser tão distante do que eles vivem. Isso é, não só o fato geográfico, mas também do que eles vivem em casa”, explica Nice.



As meninas e as verduras


“É o novo tópico, meu bem. A vida nos trópicos não tá fácil pra ninguém. É o mundo nas costas e a dor nas custas. Trilhas opostas, ‘la plata ofusca’”, outro trecho de Emicida ilustra a realidade de duas irmãs. A falta de acesso e aquisição monetária pesa ainda mais na casa de Alice, de 8 anos, e de Aline, de 12 anos. Em casa elas cuidam do irmão de 3 anos enquanto os pais estão no plantio a um quilômetro da casa.


Alice. Foto: Mariana Albuquerque


A família das meninas tem o selo de cultivo orgânico, e é disso que elas vivem. A venda de verduras, das mais variadas, para feirantes ou mesmo pequenos mercados. Na casa delas, o acesso à alimentação é limitado e é comido apenas o que se produz. A casa está suja e cheia de cachorros, elas me receberam e mostram que os cinco integrantes da família dividem uma cama de casal e uma de solteiro.


Alice ainda estuda no Sonhém, já Aline formou na mesma escola em 2021 e agora precisa andar mais de dois quilômetros para pegar um ônibus até seu novo colégio, que está um pouco mais na cidade. Aline conta que ainda sente muita dificuldade o caminho é um impedimento que desmotiva a menina de comparecer todos os dias, enquanto o conteúdo é difícil sem acompanhamento para estudar.


Aline. Foto: Mariana Albuquerque


A mais velha me conta que tem sentido dificuldade em diversas matérias, mas que a pior para ela é o inglês, já que em sua antiga escola não tem aula e nem professores qualificados para a disciplina. “É difícil porque é muito diferente”, desabafa.


“Essas crianças passam por dificuldades diferentes, porém têm histórias parecidas. Cada um mora a menos de um quilômetro um do outro. As escolas de campo formam seres humanos que têm a necessidade de mudar a realidade que vivem, então buscamos fazer nossa parte para ajudar. São pessoas como nós, mas com dificuldades inimagináveis que vão além apenas dos estudos”, completa a vice-diretora da escola.


A educação como ferramenta


A maioria dos funcionários deste local trabalham por vontade própria, e não porque ganham mais. As mesmas oportunidades que surgem aqui eles também teriam na cidade. “Aqui eu tenho paz, só os problemas são diferentes, mas aqui é mais tranquilo, quer dizer, na maioria das vezes”, escuto de uma das meninas que trabalham na cozinha. Os problemas da cidade definitivamente são enterrados ao vir para cá.


Hoje o Distrito Federal atende cerca de 80 escolas de campo. A formação de um estudante deste em uma escola próxima a sua vida – vida essa muito diferente da que se leva na cidade – possibilita que esses alunos tenham a formação dentro do seu espaço e território, de seu contexto de produção de vida, de sua cultura,. Isso reduz a evasão escolar e gera a inserção social.


A vice-diretora da instituição, Nice Souza, explica que a escola nesta região pode proporcionar um ensino diferenciado para essas crianças, que se não tem esse apoio aqui, muitas vezes são abandonadas pelo próprio Estado e não são nem mesmo alfabetizadas. “O problema por muitas vezes se estende para outras fases de ensino, o Sonhém só atende até o 5º ano do ensino Fundamental , são séries iniciais” afirma.


“Aqui temos como base a educação primária dessas pessoas em formação. Depois elas são enviadas para outras instituições mais próximas à cidade para que façam até o Ensino Médio. Muitos abandonam, a dificuldade de locomoção, e distanciamento com a realidade vivida em casa são um problema para grande parte dos alunos”, acrescenta ela.


O contato com a natureza, os mistérios e segredos da terra, as surpresas das condições climáticas e tradições da comunidade camponesa impactam na forma como aqueles alunos irão lidar com o futuro e como trarão o ensino para a vida real.


As unidades escolares do campo da rede pública trabalham com a Proposta Didática para Construção de Inventário Social, Histórico e Cultural das Escolas do Campo. A ideia é mostrar que cada uma delas é parte integrante da comunidade. O objetivo é que o estudante seja protagonista do processo. Ao observar as características singulares do local onde vive, o aluno reflete sobre as formas de organização, identidade cultural e relação de pertencimento à comunidade.


Quando vou embora, ficam aqui Thales, Maxuel, Alice e Aline, alunos do Sonhém cada um com histórias únicas e problemas semelhantes, mas em comum um fato: independente da dificuldade que enfrentam para aprender, basta cinco minutos de conversa com eles que te ensinam muito mais do que qualquer livro didático.


Por Mariana Albuquerque

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira


 
 
 

Comentários


bottom of page