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Como as crianças que cresceram lendo continuam fiéis a leitura

  • Foto do escritor: Isabela Domanico
    Isabela Domanico
  • 28 de jun. de 2023
  • 4 min de leitura

Era uma vez uma menininha que lia

Cada vez ela ia lendo mais

As pessoas falavam que ela não tinha controle

Era uma descontrolada


Essa garota foi crescendo

E ela começou a ler uns livros diferentes

Livros que falavam sobre a proibição da leitura

Pessoas que queimavam livros

Em mundos que a faziam acreditar que a leitura não era essencial


Ela cresceu no meio de livros

Viveu mil vidas sem sair do lugar

Mas a leitura ficava cada vez mais inacessível

Era isso que as pessoas queriam?

Um mundo sem a leitura?


“Em um mundo onde as pessoas vivem em função das telas e a literatura está ameaçada de extinção, os livros são objetos proibidos, seus portadores são considerados criminosos.”

Ray Bradbury - Fahrenheit 451


Aquela garota deu um jeito de continuar lendo. Lily* tem 19 anos e leu 90 livros em 2022, “Fahrenheit 451” foi um dos livros que mais a influenciou, junto com “Jogos Vorazes” e “Todo dia”, uma fã de distopia assim podemos dizer. “Eu acho incrível ver essa possibilidade, como o mundo pode se tornar dependendo das coisas que fazemos”, disse. Mas para continuar nesse ritmo frenético de leitura, ela teve que apelar para a pirataria. Pela facilidade e pela quantidade de livros que ela acaba lendo, não é viável ficar comprando os livros.

A pirataria tem o seu próprio jeito de funcionar, existe uma regra silenciosa, mas nem tanto, de que você não vai piratear os livros nacionais. É um jeito de valorizar a literatura nacional. Vendo tudo que os autores nacionais passam para publicar os livros na indústria nacional de literatura, ela mesma diz que prefere baixar livros que sejam em inglês ou espanhol, evitando até mesmo os livros em português.


A pirataria de livros nacionais e independentes impacta diretamente o autor, uma escritora independente acaba sendo responsável por bancar todos os processos da publicação, como capa, revisão de texto, diagramação e a divulgação, “A pirataria é extremamente danosa, sendo um verdadeiro roubo do nosso trabalho” diz a autora nacional independente Leticia Zanocco que possui seis obras publicadas na Amazon. Sinergia é a sua última novela publicada.


Em novembro de 2022, um dos maiores sites de download de livros e artigos, Z-Library, caiu, o Departamento de Investigação Federal dos Estados Unidos (FBI) derrubou o site e prendeu dois dos fundadores. A investigação é por violação de direitos autorais, o portal tinha um acervo com mais de 11 milhões de livros e 84 milhões de artigos.


A lei da pirataria no Brasil é a Lei nº 10.695 de 01 de julho de 2003 e ele condena a violação do direito autoral, quando a outra parte ganha algum lucro, direto ou indireto, em cima do ato, podendo ficar de 2 a 4 anos preso além da multa, explica a advogada Sarah Hellen Ribeiro dos Santos, que não há tipicidade material para promover a criminalização da conduta de um sujeito que decide apenas fazer o download de um livro na internet sem um lucro, direto ou indireto.


Além da pirataria, os leitores encontram outros jeitos de continuar lendo no mundo digital. Na plataforma do Kindle Unlimited da Amazon, você paga uma mensalidade de R$19,90 e tem acesso a um acervo digital, que funciona como uma biblioteca virtual, com cerca de 700 mil títulos disponíveis.


A estudante Valentina Lisboa, de 21 anos, lê pelo Wattpad há mais de cinco anos. Ela considera a plataforma prática, já que permite a leitura pelo celular. Apesar de ter foco em fanfics (uma narrativa ficcional, escrita e divulgada pelos fãs), o Wattpad acaba tendo muitas obras de autoria própria. Muitos autores nacionais publicam lá, o que dá espaço para eles crescerem.


Apesar de ler bastante nas plataformas digitais, isso não impediu a estudante de continuar comprando os livros, mas esse consumo acaba sendo diferente.


“Quando eu era mais nova, ir na livraria era um paraíso, você saia de lá com 3 livros que hoje não chegam a ser o valor de 1. Você achava um livro de 20 reais, o mais caro seria 30 reais, por exemplo. Hoje, eu basicamente entro apenas pela magia do ambiente, de olhar os livros e passar um tempo lá, mas acabo escolhendo um e comprando online, por ser mais barato” diz Valentina.

Apesar do aumento nos preços dos livros, um leitor vai continuar lendo. Muitos leitores viraram para as plataformas digitais para continuar lendo, Camila Menezes de 25 é estudante e faxineira optou por assinar o Kindle Unlimited, que a fez economizar muito, mas ainda sente falta de comprar um livro físico todo mês. Barbara Gabriel, de 19 anos, diz que esse aumento de preços a influenciou para migrar para os livros online. A professora de Ensino Médio há 20 anos, Tatiana Soares Vidal, repara que os alunos tendem a ler mais e mais por algum tipo de aparelho e menos os livros físicos.


Mesmo com esse aumento de preços as pessoas não pararam completamente de comprar livros físicos, a advogada Aline Teixeira prefere os físicos e não gosta de ebooks, mas tende a comprar pela internet, pois não compensa, ela diz que já foi na livraria e achou o primeiro livro de uma série por mais de 100 reais, já na internet os dois primeiros estavam por 90 reais.


(Livraria Travessa no Casa Park em Brasília. Foto: Isabel Martinello)


A leitura não ganha a devida importância no Brasil. Realizada em 2019, a 5ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-livro, aponta que o brasileiro lê aproximadamente 5 livros por ano, sendo que apenas metade deles lê o livro por inteiro.


A dificuldade para comprar livros é um dos fatores que impede o brasileiro de ler mais, porém não é o único. Segundo o Instituto, muitos brasileiros dizem que não têm tempo, preferem outras coisas, se sentem muito cansados para ler ou até mesmo que têm dificuldades para a leitura.


As estudantes de 17 anos, Gabriela Regal e Helena Reis dizem que quando vão a uma livraria tem muita pouca chance de sair com um livro de lá e que ficam insatisfeitas pelo aumento dos preços dos livros e que isso aumenta a falta de acessibilidade para a leitura. A Ana Carolina Caglioni, de 26 anos, é atendente de balcão e diz que entende os valores das plataformas online, mas que como assalariada não consegue adquirir tantos livros quanto gostaria.


Por Isabela Domanico

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

 
 
 

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